domingo, 24 de janeiro de 2010

A Válvula de Escape

Hoje estive muito empolgado numa parte do meu dia, projeto com a banda que estou formando, uma composição nova, há muito eu não compunha, e até fiquei rascunhando num papel o repertório de um CD, quais músicas que são legais pra decidir como ‘músicas de trabalho’ quais músicas escolher pra fazer um CD demo e essas coisas, mesmo sabendo que minha banda tem muito que ensaiar e que gravar um CD influenciado em Rolling Stones, Barão Vermelho, Raul Seixas e tantas outras coisas boas, hoje em dia, é bem complicado, mas daí, quando cheguei em casa me deparei com uma realidade que não quero mais encarar, ainda mais sabendo que o que proporcionou isso tudo foi o erro de alguém que se diz adulto e experiente por ter seus quarenta anos, daí após uma discussão saiu esse texto aí.




Minha Válvula de Escape

Agora vivo perante duas realidades, o mundo lá fora belo e bonito, cheio de cores, amores, cheio de vida, minha liberdade, e o mundo aqui dentro, preto e branco e horroroso, se pego num lápis pra rascunhar num papel, há alguém por perto atrapalhando minha concentração, se preciso estar só há alguém sempre por perto, a porta que eu trancava e me isolava não existe mais, a vitrola que eu ligava pra me desconectar do resto da casa, agora está empoeirada na sala, sala esta que agora se transformou também em quarto, minha cama virou poltrona, meus materiais de trabalho agora é peça em exposição, meus cadernos estão à mostra pra quem quiser abrir, meu violão parado no canto exposto a arranhões, acidentes, quedas, ao pó, aliás, pó, que palavra não? Um pouco só agora talvez me fizesse bem, um pouco de auto-estima, um pouco de paz, um pouco do mais que eu tanto tive e agora não tenho.
Eu não tenho crenças, tenho o meu eu que levanta todo dia e segue seu caminho, que levanta todo dia pra viver a vida, pra levar tapa na cara e dar tapa na cara, pra amar e odiar, pra ser amado e odiado e disso tirar inspiração pra amanhã ganhar meu dinheiro.
Já dizia Cazuza, ‘vou forrar as paredes do meu quarto de miséria’.
E disse Renato Russo também, ‘se o mundo é mesmo parecido com o que vejo prefiro acreditar no mundo do meu jeito’, pois é, não vou mais ligar se todos dizem que o mundo que eu vivo é uma fantasia, pois deixe que seja, viver no mundo em que vocês todos vivem é que é uma tragédia, prefiro seguir meu caminho, torto que seja, vou seguir sempre, eu tenho os meus ideais, tenho meus amores, meus amigos e irmãos, tenho minhas fugas, meus escapes, se amanhã minha vida acabar é porque tinha mesmo que acabar, mas enquanto ela durar, vou fazer dela o que eu achar necessário pra ser feliz, pra encontrar quem sabe, minha válvula de escape.


Felipe Oliveira

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O Pouco, O Nada

O universo ao meu redor está pesado, está monótono, e tenho sede do novo, pegar o violão e tocar o que nunca ninguém tocou, pegar o papel e compor o que nunca ninguém compôs, pegar o microfone e berrar minha dor para o mundo ouvir, para o mundo sorrir.
Cansei de dar voltas em torno de mim mesmo, e estes meus sonhos que você não crê? Pra que servem? Pra que?
O mundo é uma bela máquina trituradora e devastadora, o mundo sufoca o que nós temos de melhor, onde está a música que preciso pra sobreviver?
Hoje sou novo pra ganhar os palcos e brilhar, porem velho pra estar parado, é cedo ainda pra ter minha casa, meu carro, mas é tão tarde e preciso de um trabalho.
Quer saber? Dane-se o mundo, só quero voltar a viver, pois, há muito que não sei o que é mesmo “viver”.



Felipe Oliveira


É cedo tão tarde
Minha garganta arde
minha voz sufocada
pede passagem
e não tem
e não veem
não veem nada além do nariz
ser feliz é mesmo complicado
o que levo ao meu lado
o que levo comigo
é tão pouco
é quase nada
mas é tudo
eu juro
é tudo, amigo.


Felipe Oliveira

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um Salto

O louco da cidade não quer mais viver. - Louco da Cidade - Blues Etílicos

Chove forte lá fora, há muito tempo que eu não via cair chuva assim, a minha vontade é passar pelo portão deste edifício, subir a rua e começar caminhar sem rumo algum, deixando a chuva e o vento atravessarem meu corpo, este corpo que mal me sustenta. Por algum motivo de força maior, não estou lá, mas estou aqui, escrevendo que queria estar. Estranho!
Estranhos estes meus sonhos que me fazem continuar e lutar por algo, mas que ao mesmo tempo me faz chorar, me sentir triste, melancólico.
Quando a chuva passar, e daí sobrar dela só o vento, forte e frio, e as gotas d’água escorrendo das folhas das árvores, irei até a sacada com menos da metade de uma garrafa de uísque, acabarei com ela, pensando sempre em me jogar pro outro lado, quem sabe eu não possa voar e então me libertar dessa gaiola que aprisiona e ignora minhas idéias e opiniões como se eu fosse apenas um subordinado escravo, predestinado a fazer tudo, exatamente tudo o que eles bem entenderem, como se eu fosse um discípulo e tivesse que abandonar sonhos, planos, amigos pra seguir aos passos de um “mestre” que confuso, nem mesmo sabe pra que seguir e pede ao pai: “se possível passe de mim esse cálice”.
Por mim, ficaria aqui escrevendo até acabar o lápis ou as folhas do caderno, mas o vazio, o ódio e a revolta me toma, é tão grande que estampam em meu rosto lágrimas, lágrimas de raiva, tristeza e dor, lágrimas que invadem o papel, borrando a escrita, tornando um auto-retrato perfeito e fiel do meu eu, o meu eu borrado. Como se não bastasse, aquela velha dor de estômago está aqui bem presente, companheira das horas difíceis, ela não me abandona, é como se algo lá dentro fosse mordendo e acabando em segundos com cada canto possível. Eu espero ter coragem pra me jogar pro outro lado daquela sacada qualquer dia desses, colocarei fim em todas as minhas dores e aflições num golpe só. Parece egoísmo, e eu até sei que há pessoas em situações piores que a minha, mas meu vazio interno é maior que qualquer necessidade externa, eu já cansei de buscar e não encontrar preenchimento. E logo eu acabo de vez com o vazio, com o ódio, com a tristeza, com a dor e com tudo o mais, apenas num salto.


Felipe Oliveira